dez 18 2009

O que é o Distúrbio Específico de Linguagem?

O surgimento da fala, entre um e dois anos de idade, talvez possa ser considerado o maior marco do desenvolvimento infantil, entretanto, alguns fatores podem comprometer e atrasar esse processo, entre eles estão: as perdas auditivas, as deficiências mentais, os distúrbios abrangentes do desenvolvimento, as privações ambientais extremas, as síndromes e as alterações sensoriais; alterações que comprometem aspectos motores de forma significativa, além do fato de que indivíduos que apresentam estas alterações levarão tais comprometimentos ao longo da vida.

Entretanto, muito freqüentemente encontram-se crianças que não possuem nenhum dos fatores destacados e que não apresentam um desenvolvimento de linguagem no padrão esperado, muitos chegando aos cinco ou seis anos de idade com manifestações atípicas (não normais) do desenvolvimento e mantendo dificuldades significativas com linguagem por toda a vida, principalmente no período escolar. Nessas situações fica caracterizado o Distúrbio Específico de Linguagem (DEL), que é uma desordem da infância que pode acarretar conseqüências persistentes em toda a vida do individuo.

O termo Distúrbio Específico de Linguagem (DEL) refere-se a crianças que apresentam dificuldade em adquirir e desenvolver habilidades de linguagem na ausência de deficiência mental, déficits físicos e sensoriais, distúrbio emocional severo, fatores ambientais prejudiciais e lesão cerebral. Apesar da inexistência de marcas biológicas que justifiquem o comprometimento de linguagem, há evidências da presença de um componente genético determinante nesta patologia, ainda que de origem e localização incertas.

O diagnóstico destas crianças, geralmente, inclui tanto medidas de recepção quanto de expressão de linguagem. Embora ambas as tarefas exijam o processamento semântico (significado das palavras) e sintático (concordância gramatical) da informação, a produção envolve habilidades sofisticadas de processamento fonológico (pensar e usar uma letra na fala), bem como um maior domínio lingüístico (das palavras da língua) que permita a criação de sentenças inéditas. Em relação a este aspecto, crianças com DEL comumente apresentam melhores habilidades para compreender estruturas frasais do que para produzi-las, podendo apresentar inclusive desempenho satisfatório para a faixa etária em medidas de recepção de linguagem, geralmente as que envolvem o reconhecimento de palavras isoladas – em contextos fechados, em forma de figuras ou miniaturas – não necessariamente exigindo a compreensão de sentenças.

As dificuldades lingüísticas manifestadas pelas crianças com DEL costumam estar relacionadas, principalmente, às áreas da Fonologia (trocas e omissões de letras na fala), Semântica (vocabulário reduzido), Pragmática (uso inadequado da comunicação, pouca iniciativa comunicativa) e Sintaxe (erros de concordância e uso predominante de frases curtas), em diversos níveis. Destas áreas possivelmente afetadas, são classificados os subtipos de DEL, de acordo com a(s) área(s) da linguagem de maior prejuízo, sendo bastante comum o indivíduo apresentar mais de uma área da linguagem alterada.

Ao longo do desenvolvimento, e com o auxílio da terapia fonoaudiológica, estas crianças costumam melhorar seu desempenho em algumas tarefas, podendo inclusive migrar entre as subclassificações de DEL, podendo reduzir o nível do seu comprometimento, através do treino de habilidades cada vez mais complexas, a fim de que o indivíduo consiga ser alfabetizado e ter um aprendizado escolar satisfatório.

Fga. Anne Elise Vivo Rodrigues
CRFA: 15897

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